É preciso saber existir como um rio, fluir na imensidão dos dias, sentir vez ou outra a memória do tempo escorregar, sem paredes, sem apoio, transcorrer mesmo.
Por mais que a gente performe, bonito, o que tem pra ser vivido, não combina com ensaios, os ventos são para emitir barulhos e alertar que algo está passando. A vida é fluidez.
E se fóssemos reconhecidos apenas pelo nosso coração? Haveria só poesia? Brilhariam só as camadas bonitas? Ou o mundo em desconstrução?
Assumir o papel da incerteza, com sutileza, faz parte da mudança, do rio grande e profundo que corre dentro de nós. Ou afunda ou transborda, não dá pra secar e sentir medo do raso. Reconheces a finitude que é tu mesmo? Ou se apavoras com o mar em ressacas?
Que permaneçamos vivos. Não apenas existindo. Continuemos transbordando, habitando, recomeçando, transformando tudo no caminho. A vida, aflita e só, acontece no caminho. Absurda, absorvida através das retinas tempestivas, quase pueris do tempo que sopra em nossos rostos.
Um dia viramos paisagem e seremos todos contemplados por alguém, encantados, desaprumados, um rumo só, bilhete de saudade com sorrisinho no canto do rosto.
Se livre, um córrego sonha em ser rio, riacho, ribeirinho, quem sabe até um lago...
Sonhe mais, até mudar de cor...
Hudson Vicente.